O problema não é você

feios perfeitos especiais

Como a maioria de vocês sabe, no fim do ano passado eu precisei dar uma parada em tudo, inclusive no Quintal, para focar completamente no tratamento de compulsão alimentar. Foram muitas sessões de terapia para entender o porquê de eu canalizar tanta coisa na comida. Uma das minhas terapeutas me explicou que a compulsão alimentar, assim como qualquer outro vício, é a goteira de um vazamento no cano. Ela não é o motivo pelo qual o cano está vazando, só uma consequência. E, na maioria das vezes, nos preocupamos mais em colocar algo para tapar o buraco do vazamento do que ir procurar e consertar o real motivo pelo qual o cano está com problema. E olha, eu tinha muitos.

No meio de todo tratamento descobrimos que eu tinha criado um personagem no qual vivia. A garota perfeita. Ela sempre conseguia fazer as coisas do jeito certo, nunca errava, nunca ficava triste, sempre podia ajudar todo mundo – mesmo que isso a atrapalhasse completamente -, era a melhor em tudo, nada a abalava, ela era incrível. Essa “Isabelle personagem” foi sendo criada ao longo dos anos com o único propósito: que as pessoas não me abandonassem.

Em algum momento ao longo da infância, a baby Isabelle começou a perceber que se ela nunca errasse, sempre ajudasse e compreendesse todo mundo, mesmo que isso fosse contra o que ela acreditava, as pessoas SEMPRE iriam gostar dela, todo mundo a amaria e ninguém nunca a abandonaria. Mas, como vocês podem imaginar, viver a vida de um personagem era muito cansativo. E a comida era um escape, um momento onde podia entrar em contato com uma parte frágil e abandonada de mim, onde sentia de verdade. Sentia euforia, alegria, prazer… depois ódio, raiva, tristeza, nojo.

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Bom, porque eu tô contando tudo isso? Para te dizer que você não precisa agradar todo mundo. Você não precisa se transformar em outra pessoa para que todo mundo goste de você e nunca te deixe de lado. Porque a verdade é que fazer todo mundo gostar de você é impossível. E eu aprendi isso da forma mais difícil.

Me senti deslocada praticamente a minha vida inteira até esse momento. No colégio isso é horrível, não fazer parte de grupo nenhum, sem saber muito bem com quem sentar na hora do intervalo. Mas só queria vir dizer que é ok, e bem legal, ter gostos diferentes da maioria. E você não precisa ouvir o que todo mundo ouve ou fazer o que todo mundo faz para ser aceito, porque fingir ser alguém que você não é triste e pode se tornar um caminho sem volta, como quase foi comigo.

Poderia dar mil dicas de como se enturmar, como fazer mais amigos, como fazer as pessoas gostarem de você nos primeiros cinco segundos – porque existem várias formas de fazer isso usando linguagem corporal, programação neuro linguística, etc – e essas coisas são bem legais na hora de conseguir um estágio ou apresentar um trabalho mas, de verdade, no dia a dia onde você precisa escolher com quem sentar no intervalo… isso é tão fúti e deprimente.

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Só queria dizer que você não precisa viver num personagem. Você JÁ é incrível. Claro que você pode mudar de gostos, passar a curtir o que antes odiava e mudar de opinião mas faça isso porque REALMENTE chegou à uma conclusão por você, nunca para fazer os outros te acharem mais legal e te deixarem entrar na turma.

Eu amo muitas coisas da minha personalidade, que eu tive que re descobrir, outras eu não suporto. E isso é ótimo! Significa que eu sou uma pessoa real. E tô vivendo uma fase que quero pessoas, relacionamentos, problemas reais. Nada idealizado. Nada perfeito. Obvio que busco melhorar o que me incomoda mas tem umas coisas que eu gosto tanto e, mesmo sendo estranho para maioria, eu não quero mudar.

Tipo o fato de eu querer casar virgem. Eu amo isso! Amo todo o significado por trás e não tô me importando muito se a maioria acha a coisa mais ridícula do mundo. Eu adoro jazz de 1940, 1950 e, não, não tô afim de ouvir nada mais contemporâneo. Eu fico muito irritada quando alguém atrasa comigo sem dar satisfação e, não, eu não vou ser menos chata com horário. Não suporto gente que bebe para ficar bebada e vou continuar achando isso a coisa mais vazia que se pode fazer com um sábado a noite. E essa sou eu. O problema não é comigo, nem com ninguém. O problema é tentar ser alguém que não se é para ganhar o amor dos outros, porque no fim vai ser um amor falso, por alguém que nem existe. E de fantasia já me bastam os livros.

E por aí, já passou por esse dilema de mudar para agradar alguém? Como foi, me conta! Quero saber mais das histórias de vocês!

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